Território hostil para quem?

    Sabe o que o vascaíno AMA dizer? "Eu tenho estádio pra jogar." E é verdade! Somos o único grande time carioca que joga em estádio próprio. Orgulho? É claro que temos. Nosso estádio foi construído em 1927, graças ao esforço dos vascaínos. Os torcedores angariaram fundos tanto para a compra de um terreno em São Cristóvão quanto para a construção do estádio. O recorde oficial de público é do jogo Vasco x Londrina, 19/02/78, 40.209 pessoas. Hoje em dia, se considerarmos os dados do globoesporte.com que informam a ocupação de 84% do estádio no jogo contra a LDU, quando 18.517 pessoas compareceram, nossa casa comporta cerca de 22.000 torcedores. Pode ser definido como estádio raiz, um caldeirão como nós mesmos cantamos. A Colina histórica, no entanto, vem apresentando problemas. 
      
    Se você acompanha o clube, já ouviu ou leu a frase: território hostil desde 1927. Significa que nossa casa é um caldeirão, foi feita para o Vasco da Gama se sentir à vontade, colocar pressão no adversário, intimidar o time visitante. O problema é que algumas pessoas, indevidamente chamadas de torcedores, têm tornado o estádio hostil para o próprio vascaíno. Entre os relatos mais comuns estão as agressões físicas e o assédio às torcedoras. Quinta-feira a torcida deu um show nas arquibancadas com apoio ao time durante os 90min de bola rolando (ou não). O problema mesmo foi nos bastidores. Em declaração ao Uol Esporte, o vencedor da segunda edição do game show fanáticos, João Almirante, relatou que foi agredido antes da bola rolar pela Sul-Americana. Além disso, o twitter do News Colina registrou que uma de suas integrantes sofreu assédio; o movimento "Vascaínas contra o assédio" alertou contra outros casos de assédio à mulher, inclusive a mulheres do próprio movimento. Aí no fim de semana e em outros dias de jogo, as pessoas e os programas esportivos questionam o porquê de muitos estádios receberem públicos pequenos. Ora, quem, mesmo amando o time, gosta de andar desprotegido e de colocar em risco a própria vida?
   
     Não sou do Rio e, infelizmente, nunca fui a São Januário. Visitar o complexo, ir a um jogo lá é, com certeza, um dos sonhos que pretendo realizar algum dia. Mas, vendo todas as dificuldades, todo risco e todos os problemas, não dá para simplesmente imaginar que, sozinha, eu chego e fico lá com segurança. As pessoas, especialmente as mulheres, já pensam em quem pode acompanhá-las, quem pode ajudá-las a se proteger. Sofremos isso no dia-a-dia, imagine só indo a um lugar distante e até desconhecido... É triste dizer, mas, a ida aos jogos do Vasco é preocupante.
      
    Para combater esses casos de violência, muitos torcedores pedem que os próprios vascaínos denunciem e acusem os responsáveis, ou melhor, irresponsáveis. Mas isso não é suficiente. Vocês acham que só com os torcedores denunciando, seria possível evitar aquele quebra-quebra no jogo contra o flamengo? É claro que não. O clube, a instituição, precisa elaborar um projeto para diminuir e, se possível, acabar com os casos de violência. Como está o treinamento dos seguranças? Eles de fato fiscalizam o que entra dentro do estádio? Os responsáveis pelo marketing fazem campanhas contra o assédio? Quando a prevenção não funcionar, é necessário punir quem causa a baderna e até mesmo banir do estádio, ao menos por um tempo, os baderneiros de plantão.

       Outra questão que envolve a Colina histórica é o prejuízo de jogarmos em nossa própria casa. Toda logística de uma partida de futebol envolve grana e o dinheiro arrecadado com a venda de ingressos não vem sendo suficiente para arcar com as despesas dos jogos. Ou seja, é preciso chegar a uma conclusão do que é um preço bom para o torcedor e para as finanças do clube. Além disso, precisamos de ideias para aumentar a arrecadação dentro do estádio. Pergunte a quem frequenta o estádio onde ele prefere ficar naqueles instantes de pré-jogo: no entorno de São Januário ou dentro? Bebida dentro custa mais caro, o clima é diferente. Sabe o que acontece? O time deixa de ganhar o dinheiro do torcedor que prefere consumir fora do estádio e, para completar, muita gente acaba entrando para o jogo nos últimos instantes. Isso causa tumulto, filas grandes e, nos empurra-empurras da vida, confusões podem ser causadas.
 
     Atenção, estamos perdendo dinheiro mesmo tendo estádio próprio. Apesar do bom público nos últimos jogos, não conseguimos cobrir os custos das partidas e saímos devendo. Além das questões de violência, quais são os projetos para melhorar o acesso e a entrada do nosso estádio? Com o objetivo dos torcedores não entrarem no estádio em cima da hora, o que há para ser feito? Por que não fazer uma parceria com as distribuidoras de bebida para que, antes do jogo começar, as bebidas sejam mais baratas? Que tal utilizar aqueles "canhões" para jogar algumas camisas para a torcida no pré-jogo de uma maneira que não traga prejuízos? Não seria melhor padronizar os preços dos ingressos de uma maneira que não fiquem nem tão caros (o que diminui o público) nem tão baratos (o que traz prejuízo)?

    Violência e logística ruim afastam o verdadeiro torcedor do estádio; ficamos acanhados e atemorizados, nossas famílias ficam preocupadas. Será preciso outra confusão como a do jogo contra o flamengo no ano passado para que as coisas se acertem? Nosso rendimento esportivo precisará ser mais uma vez prejudicado antes de se tomar alguma atitude enérgica por parte dos poderes do clube? Um clube conhecido internacionalmente pela luta contra o racismo terá sua história manchada pela violência e pelo desrespeito às mulheres?
   
        Torcedores, colaborem; não incitem a violência, saiam de casa para apoiar o time e protestar de maneira pacífica. Lembrem-se que a colina histórica é nossa casa. Diretoria, atente-se para os problemas do nosso estádio e tome medidas eficientes para melhorar a experiência do torcedor e arrecadação com os jogos. Vamos fazer de São Januário novamente um caldeirão, um estádio no qual os times adversários venham com medo não da violência, mas sim da pressão exercida pela nossa torcida apaixonada.
     
        Creio que nenhum de nós tenha, sozinho, a solução para todos os problemas. Mas, conversando e trocando ideias, podemos encontrar um caminho para a melhora. O torcedor merece o melhor, assim como o clube.


       Saudações vascaínas.


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