A carência e a bipolaridade vascaína
Não há como não dizer que a Copinha 2019 foi, nos últimos anos, a mais empolgante para o torcedor cruzmaltino. E isso se deve a algumas coisas. Uma delas, obviamente, porque o time foi avançando no campeonato e chegou à final. Mas o que mais deixou nosso ânimo exaltado e nos orgulhou, foi o resgate do 'jeito Vasco de jogar'. Em nenhuma partida os jovens da base jogaram por um empate; sair na frente nunca foi motivo para recuar; retranca não era opção. O time jogava solto, apresentava qualidade, os toques de bola eram refinados, a qualidade individual disputava pau a pau com a organização coletiva para ver quem mais se destacava; além disso, jogador formado em casa tende a ser mais identificado com o clube e com a torcida, e não podia ser diferente nesse elenco. O título não veio, mas isso não diminui a qualidade da garotada.
No entanto, apesar de os jogadores que o Vasco vem formando mostrarem grande potencial, creio eu que a nossa empolgação foi ainda maior por conta da carência com que a torcida vascaína vem sofrendo há um tempo maior do que gostaríamos. A falta de ídolos atuais, o costume com times retranqueiros e a falta de qualidade técnica do elenco profissional certamente contribuiu para que a Copinha representasse tanto para nós vascaínos. Há tempos não se via tanta qualidade em campo e as atuações do sub-20 foram um bálsamo e uma luz no fim do túnel para os torcedores.
Mesmo assim, a carência de bons jogadores nos profissionais NÃO justifica a bipolaridade vascaína e muito menos as ofensas proferidas aos atletas, principalmente ao Gabriel Norões. O que chamo de bipolaridade vascaína é a predisposição que alguns torcedores apresentam ao longo de uma temporada e/ou jogo. Enquanto o time se classificava, eram só flores, "raiz é ser Vasco", "pode subir todo mundo pro profissional". Mas eis que, na final, o time formado só por garotos, grande parte sem estar estourando a idade do sub-20, joga mal pela primeira vez (nesse campeonato). De fato fizemos um primeiro tempo muito abaixo do que em todas as outras partidas; talvez porque sentiram a pressão, ou porque a torcida era 90 contra 10%, talvez pelo cansaço de terem jogado a maioria dos jogos em condições adversas ou simplesmente por estarem num mau dia. Um primeiro tempo ruim fez com que parte da torcida já acusasse alguns jogadores de pipoqueiro. Não há nenhuma razão plausível para isso. Tomamos mais um gol no segundo tempo, mas conseguimos empatar com um gol de quem foi chamado de 'pipoqueiro' e outro do considerado 'grosso' e levamos para os pênaltis. Infelizmente o resultado não foi o esperado e assim veio a maior vergonha do dia.
Perder, ser goleado, jogar mal, falhar num lance, tudo isso faz parte do jogo. Ficar triste, se revoltar, reclamar, faz parte da torcida. Ofender, ameaçar, rechaçar um jovem de casa por conta de uma partida não. No início desse mês, fiz um texto criticando o uso da expressão "vascaíno de verdade", mas, nesse mesmo texto, deixei claro que há comportamentos que de fato não condizem com um vascaíno. Gabriel Norões, nosso zagueiro titular na final, teve uma tarde de sexta-feira muito infeliz em campo; falhou nos gols, errou um pênalti. É normal que a torcida tenha ficado insatisfeita, reclamado enquanto assistia, desejado que ele não suba para o profissional, eu mesma achei um absurdo colocá-lo para cobrar o pênalti. Quando o jogo acabasse, no entanto, independente do resultado, era momento de apoiar, esfriar a cabeça, até mesmo lamentar, mas também reconhecer que o estilo de jogo vascaíno havia sido resgatado. Mas alguns que se dizem vascaínos resolveram adotar um dos comportamentos incondizentes com nossa história. Vou deixar alguns prints do Instagram do Gabriel Norões para vocês tirarem as próprias conclusões. Fica aqui o meu repúdio ao que fizeram e o meu apoio ao zagueiro. Independente do que você ache do lado futebolístico do jovem, é preciso respeito à pessoa. Apoiar essa imbecilidade não é coisa de 'vascaíno de verdade', não é humano.
No mais, parabéns aos garotos; obrigada por reavivarem em nós um sentimento que não vinha ao nosso peito há um certo tempo. E que esse jeito de jogar contagie o time principal. Cabe agora ao Valentim, de maneira planejada e não colocando os jogadores na fogueira, aproveitá-los. Que a transição entre a base e o profissional seja realmente profissional, amém.
P.S.: Me aproveitando de algo que li no twitter, não achem ridícula a derrota de ontem na Copinha, perder uma final de Carioca para o Botafogo é muito mais vergonhoso.
Saudações vascaínas.



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