Futebol raiz ou várzea?

      O Campeonato Carioca é conhecido como "o mais charmoso". Regulamento diferente dos demais estaduais, turnos com nomes distintos (Taça Guanabara e Taça Rio), times pequenos tradicionais... Alguns ocorridos, no entanto, vêm destruindo cada vez mais o cariocão e o seu charme. O regulamento, por exemplo, praticamente sepultou a alegria de conquistar um dos turnos do campeonato. Pouco, quase nada vale conquistar uma das Taças; a recompensa financeira é pouca (850 mil reais), a conquista não garante o time na final do campeonato (a menos que o mesmo time ganhe os dois turnos). Contudo, o que quero destacar no texto de hoje não é regulamento em si, mas as péssimas condições do Campeonato.

        O jogo dessa quarta, Portuguesa da Ilha x Vasco, foi em Moça Bonita, e, apesar do nome, eu DUVIDO que alguma mulher tenha ficado bonita acompanhando uma partida às 17h (horário de Brasília), 16h ('horário do sol'), no refrescante estado do Rio de Janeiro. A temperatura agradabilíssima alcançou apenas 41 graus. Vi uma pessoa comentado que quem atuasse nessa partida deveria ganhar um adicional de insalubridade. Seria justo. Marcar um jogo para tal horário no verão do Rio de Janeiro é um absurdo e uma irresponsabilidade da Federação. Independe de para qual time você torça, de você achar que jogador de futebol tem que aguentar tudo pelo fato de ganhar bem, é preciso admitir que não há como exigir que um atleta atue em alto nível sob um sol de 40 graus. Como exigir intensidade? De que maneira um jogador pode atuar 90min com qualidade? Para rever isso, vão esperar um atleta passar mal ou, Deus os livre, morrer? Além de pensar na atuação dos times, é necessário um olhar sobre os torcedores. Como esperar que a torcida compareça em peso num jogo às 17h e em plena quarta-feira? Os torcedores que lá foram são verdadeiros heróis: gastaram com transporte, ingresso e protetor solar fator 70, além de não poderem desfrutar de um futebol de qualidade.

       O Vascaíno que acompanhou o clube em 2018 viu o que sofremos com as seguidas lesões em 2018. A maioria delas, é verdade, aparentou ser  por conta de problemas no Departamento Médico e na preparação física. A preocupação com as contusões deveria ter ficado para trás assim como o ano de 2018, mas ela segue nessa temporada. Dessa vez, no entanto e por enquanto, ela não se deve ao DM, mas sim à condição dos gramados (não vou nem chamá-los de pasto pois o mesmo poderia se sentir ofendido). Gramado ruim potencializa o risco de lesões e diminui a qualidade do espetáculo; o domínio de bola fica ruim, a troca de passes, que já não é uma beleza nos estaduais, fica prejudicada, a bola quica onde não devia e etc... Até o sistema de irrigação deu problema antes do jogo do Vasco e, assim, uma parte do campo ficou inundada por um tempo. Fica até difícil avaliar como os times jogaram. Um agravante: em 4 jogos esse ano, 2 foram com gramado ruim e, no sábado, o Vasco vai jogar em Brasília, sendo que o gramado do Mané Garrincha estava sem condições de jogo até poucos dias atrás (!) e só começou a ser trocado essa semana. Vai dar tempo de ficar bom? Será que não dava para ter exigido essa troca antes?

(Foto: Bruno Giufrida/Twitter)

       Há quem diga que essas condições nas quais o Carioca vem acontecendo é futebol raiz, que "o futebol respira". Discordo, isso é várzea. Concordo que hoje em dia estão gourmetizando o futebol, o público com renda baixa vem sendo afastado dos estádios, mas isso não é justificativa para campos ruins e jogos em horários inadequados. É legal jogar em estádios tradicionais desde que esses garantam a qualidade do esporte ao invés de atrapalhá-lo. Precisa-se entender que isso é futebol profissional, não é o baba (pelada) do fim de semana, não são moleques jogando bola no bairro. Se a qualidade do futebol diminui, o charme do campeonato também diminui e o interesse dos torcedores, que já não é grande, um dia acaba.


       Saudações vascaínas.

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